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  • Foto do escritorLucas Chiquetto

POR QUE THE LAST OF US - PARTE II É UM DOS MELHORES JOGOS JÁ FEITOS ATÉ HOJE. (Há spoilers)

Atualizado: 5 de dez. de 2020



Antes, de fato, começar a colocar pra fora tudo o que está dentro da minha cabeça - que mais do que nunca está transbordando, gostaria de deixar claro que qualquer palavra que eu escreva abaixo para expressar meus sentimentos em relação ao game que acabei de finalizar e experienciar não serão suficientes.


The Last Of Us - Parte II foi, simplesmente, a maior experiência gamer que tive na vida e precisa ser compartilhada. E posso ser ousado em dizer que superou todas as ótimas experiências que já tive em minha vida no ramo do cinema ou do game. Ele chegou pra fechar, com chave de ouro, uma geração, definitivamente.


O game foi desenvolvido pelo estúdio americano Naughty Dog, conhecido por fazer os melhores games exclusivos para PlayStation. Ouso até dizer que de todas as plataformas. A empresa é conhecida pelos detalhes técnicos, pelo design impecável, pela ótima jogabilidade, pela profundidade dos personagens e, claro, pelas ótimas histórias dignas de Oscar, se fossem escritas para filmes. Mas o que ele mais faz de melhor é proporcionar ao jogador algo que só o videogame é capaz de trazer: experiência. E, desta vez, eles se superaram.


Bom, não é novidade, mas sempre gostei de jogos. Qualquer um, Lucas? Não. Apenas jogos para consoles (videogames) que me proporcionam uma experiência imersiva, que fazem com que eu "saia da minha realidade", mas com design que se aproxima do real. Jogos para celular, por exemplo, particularmente não gosto.


Já escrevi aqui, no Ansiedade Criativa, que foi esse universo que sempre instigou a maior parte da criatividade que eu tenho e que tento praticar no dia a dia. E minha história com esse game começa em 2013, quando fui almoçar, no Shopping, com uma amiga, a Flávia Letícia. Por coincidência, um amigo dela (o Alex) nos viu de longe e veio nos cumprimentar. Conversa vai e conversa vem, ele disse que tinha jogado um game que era incrível e que o surpreendeu muito positivamente. Ouvindo isso de uma pessoa que também ama esse universo, fiquei empolgado. Então, terminando o almoço, fui até a Saraiva e comprei o The Last of Us, e fui pra casa!


De cara, na capa já constava que o game havia ganhado mais de 200 prêmios de Jogo do Ano. E, de verdade, não foi à toa. Cada detalhe era impecável. Parecia que estava assistindo a um filme de tão bem feito que era.


Na história, basicamente, os jogadores controlam Joel, um homem encarregado de escoltar uma adolescente chamada Ellie através de um Estados Unidos pós-apocalíptico. Ele, quando o mundo começou a enfrentar uma pandemia, tinha uma filha chamada Sara, que, logo no começo do game, foi morta por um oficial que recebeu ordem para atirar, achando que todos estavam infectados pelo vírus que estava se espalhando pelo mundo. 20 anos depois, o game mostra um Joel muito mais velho, amargo e apenas sobrevivendo. Aparentemente, sem motivação alguma além. Como mercenário, ele é imcumbido de levar a adolescente, a Ellie citada acima, para um hospital. Lá, ele descobre que a garota irá morrer, em uma cirurgia, para que possa ser feita uma cura para a humanidade, já que ela é imune ao vírus. Com o lado paterno falando mais alto, Joel mata vários membros dos Vaga-lumes (uma organização de sobreviventes), inclusive os médicos, e salva Ellie. No final do game, ele mente para ela dizendo que havia outras pessoas que tinham a cura, como ela, e que haviam parado de procurar uma solução definitiva para o vírus. Ficou claro que haveria uma continuação. Mas quando? Sete anos depois, teríamos a resposta, e é aí que toda essa experiência imersiva retorna, elevada a uma magnitude fora do comum.



Eu comprei a versão especial. Compre a sua também, clicando na imagem ao lado. Vem com um mini arte book bem legal, além de uma capinha pros discos que é maneira.




No dia 19 de julho de 2020, em meio a uma pandemia real que o mundo está vivendo por conta do Novo Coronavírus, a Naughty Dog lança o seu mais novo, promissor e ambicioso game: The Last of Us - Parte II, principalmente depois do vazamento de alguns spoilers de extrema importância.


O jogo era tão grande, que, pela primeira vez na história (da minha história) tinha um disco a mais para instalação.


Confesso a vocês que cada pixel e cada detalhe do game foi degustado num estado contemplativo, como uma verdadeira obra de arte, que é como esse jogo merece ser considerado. Até agora estou em êxtase.


Nossa, Lucas, mas por que esse game é tudo isso? Bom, vamos lá.


PS: A partir daqui, há muitos spoilers. Se você não jogou o game, recomendo não continuar.


DESIGN E SOM

Particularmente, eu nunca tinha visto um jogo tão bem-feito. Não havia preguiça. Tudo era original e impecável. Tudo fazia sentido. Cada detalhe colocado lá tinha um porquê. Cada efeito sonoro, cada gaveta, cada objetivo, cada música... tudo é impecável... O argentino Gustava Santaolalla, mais uma vez, conseguiu criar, por meio da trilha sonora, da atmosfera mais densa à mais emocionante. É de fazer chorar. Você, às vezes, não sabe distinguir o virtual do real. A Naughty Dog esgotou todas as possibilidades técnicas de hardware e software do console PlayStation 4. Não foi à toa que o game demorou 7 anos para ser desenvolvido. Foi um verdadeiro deleite para os fãs.


HISTÓRIA E EXPERIÊNCIA


Poderia ser só mais uma história sobre um vírus que infecta uma cidade e tem um monte de zumbis correndo atrás do personagem principal, mas, não. É muito além disso. Aqui, na Parte II, a história gira em torno de vingança e ódio e, sim, ainda em um mundo pós-apocalíptico, quatro anos depois dos acontecimentos do último game, lançado em 2013.



À medida que você vai jogando, vão surgindo muitos pontos de interrogação na cabeça. Mas, quando você termina, tudo fica claro, principalmente que toda história tem um lado. E, nem sempre o outro lado é o certo, mesmo que, para você, isso pareça ser.


O jogo começa em Jackson, em um lugar que parece um vilarejo, protegido dos infectados, onde há comida, bebida, conforto e muita alegria. Tudo lindo para o começo de um jogo. Mas, conforme o tempo vai passando, muitas coisas vão acontecendo.


Logo nas primeiras fases, Joel é brutalmente assassinado por uma mulher misteriosa chamada Abby, e Ellie, a garota que Joel protegeu no primeiro jogo, assiste à violenta cena, e pede, inúmeras vezes, para ela parar. A mulher não dá ouvidos e, numa tacada final de golfe, golpeia a cabeça de Joel que já está sem vida. Para o jogador aquela cena é de partir o coração. Como assim, mataram o “herói” do primeiro The Last of Us e, o pior, por uma pessoa que tinha acabado de ser ajudada por ele?! (há uma cena antes em que você joga com a Abby, que estava encurralada e foi salva por ele). Você, admirador do personagem no primeiro jogo, não acredita que aquilo esteja acontecendo. É de partir o coração. E aí que todo o ódio e desejo por vingança começa em Ellie e em você, como jogador, nessa incrível experiência imersiva. O que mais me vinha à mente era: como a Naughty Dog deixou que matassem um dos melhores personagens já criados pela empresa?! Aí que tá. Eles são ousados e criativos e criar personagens cativantes e profundos é uma das especialidades deles.



Você passa controlar Ellie em praticamente boa parte do jogo. E muita coisa acontece. Ela desbrava a cidade de Seattle, nos Estados Unidos, em ruínas, ao lado de sua companheira, Dina, que estava grávida (e isso só foi descoberto depois quando ela começa a passar mal, e não é possível voltar).

A garota enfrenta poucas e boas para atravessar a cidade e chegar ao Aquário de Seattle e não encontra Abby, mas elimina um a um do grupo que matou Joel, inclusive o seu "amante" e a sua amiga, que estava grávida (Ellie não sabia, mas se sentiu péssima fazendo isso).


Ellie retorna a um teatro abandonado, onde deixou Dina para repousar. De repente, acontece algo inesperado. Abby aparece, atira em dois amigos que estavam com Ellie, Tommy (irmão de Joel) e em Jesse, ex-namorado de Dina. Esse último morre, Tommy, não. E, por fim, apontando a arma para Ellie, Abby diz: “Você matou todos os meus amigos”. E tudo fica escuro.


De repente, você deixa de jogar com Ellie, para controlar ninguém mais ninguém menos que Abby, a “vilã”. Confesso que eu, enquanto jogador, não queria aquilo. Estava pouco confortável em controlar a pessoa que matou um dos personagens mais cativantes do mundo dos games, o Joel. E aí que a história, mesmo arriscada, fica muito boa. Abby não é tão má assim. O jogo te mostra, à medida que você vai jogando, que ela era uma pessoa carinhosa, muito amiga de seu pai, apaixonada por animais, principalmente por cachorros; e estava sempre rodeadas de amigos.


Sabe por que ela matou Joel, no começo do jogo? Porque seu pai era um membro dos vaga-lumes, na parte I, e Joel o matou para salvar Ellie da mesa de cirurgia. Ou seja, Ellie quer matar Abby porque ela matou a pessoa que tinha uma representação paterna para ela, mas Joel matou o pai de Abby. E agora, o que pensar? Como jogador, você passa a ter empatia pela história das duas. Mas, e aí, o que acontece?


Depois de jogar um bom tempo com a Abby, a ponto de adorar a personagem, que é forte e destemida (mas tem medo de altura, mostrando um pouco da sua fragilidade), ela encontra, no aquário, sua amiga grávida e seu “amante” mortos, pela Ellie, na primeira parte do game.


Ela, sedenta por vingança, consegue achar Ellie e seus amigos no teatro abandonado. E é aí que a história fica ainda melhor. Abby enfrenta Ellie, outra personagem carismática que você não quer em hipótese alguma machucar. Como jogador, você aperta os comandos com certa pena, numa atitude incrédula que aquilo esteja realmente acontecendo.

Depois de lutar algum tempo, Abby, mais uma vez, poupa a vida de Ellie e sua "namorada" Dina, que está grávida, ao ver Lev, um personagem trans (isso é citado de forma sutil na história. E é interessante a forma como o tema é abordado) que foi colocado na história com sua irmã, Yara (morta em uma emboscada), e presencia a cena de luta. Abby olha para o menino, que faz um olhar de reprovação, e diz à Ellie: “Nunca mais me procure”. E tudo fica escuro novamente.


18 meses se passam e Ellie está morando em uma fazenda, ao lado de Dina e seu bebê, o J.J, vivendo uma vida de paz e de família feliz. Mas, conforme você joga com ela, nessa atmosfera tranquila, longe de infectados ou seres humanos maldosos, nota-se que Ellie ainda é perturbada pela imagem do Joel sendo brutalmente assassinado na sua frente, causando nela fortes crises de ansiedade.

Em outro momento da história, ainda na fazenda, Ellie volta de um dia de caça, com coelho na mão, e vê tem um cavalo do lado de fora, que não é dela. Quando entra, ela dá de cara com o Tommy, irmão de Joel, que está cego do olho direito e mancando, com o bebê no colo. Ele cumprimenta Ellie e mostra um mapa com uma possível localização de Abby e Lev. Dina fica emputecida e pede para Tommy, que já estava indo embora, não voltar mais.


Ellie fica em silêncio, sobe e vai dormir. Não consegue. Então, na calada da noite, pega suas armas e vai atrás de Abby para, de fato, vingar a morte de Joel. Dina tenta impedir e, como cheque-mate, diz que não vai mais passar por isso novamente, se referindo às pessoas que perdeu.


Você, novamente, passa a controlar Abby, que está acompanhada de Lev, em Santa Bárbara, na Califórnia. Eles passam por algumas ruínas à procura dos vagalumes, organização em que seu pai era médico. Ela encontra um rádio e consegue se comunicar com eles. Feliz da vida, seguem rumo à base deles, quando, de repente, ela é interceptada por um outro grupo, chamado de “Cascavéis”.


Novamente, você passa a controlar Ellie, que chega a Santa Bárbara à procura de Abby. Ela passa por muitas situações complicadas, como enfrentar infectados e também pessoas más, até chegar, finalmente, ao lugar em que Abby estava presa. Depois de um longo tempo lá dentro, um prisioneiro indica que a “vilã” está nos troncos, na praia. O caminho até lá era tenso. Ela encontra muitas pessoas amarradas em troncos, praticamente todos mortos, até que, finalmente, entre eles, ela encontra Abby, irreconhecível, quase sem vida, pedindo para ser ajudada. Ellie hesita, mas ajuda, cortando a corda que amarrava Abby, que cai muito fraca, magra e sem as tranças. Ela ajuda Lev a se soltar e o carrega no colo e diz: “os barcos ficam ali”. Tanto Abby quando Ellie estavam exaustas.


A cena, muito bem pensada, tem um mar, encoberto por um nevoeiro intimidador, com dois barcos. Um de saída (o da esquerda da tela) e um virado para a praia, de chegada, à direita. Abby pega o da esquerda, enquanto Ellie, o da direita, e coloca mochilas com armas no bote e, de repente, tem uma visão horrível (um flashback) de Joel todo machucado, que faz ela se lembrar o porquê está ali. Ela vai até Abby, que está desamarrando o barco em que Lev está deitado, inconsciente, e diz: “Eu não posso deixar você sair”, e a puxa pelos cabelo e joga na água. Abby, por sua vez, diz que não quer lutar, demonstrando que ela deixou tudo para trás e não queria voltar àquela situação. Mesmo assim, Ellie insiste e as duas lutam, exaustas, sem dizer nada uma à outra. Ellie tenta afogar Abby, numa cena comovente, e, de repente, ela tem outra visão, desta vez de Joel tocando violão. Naquele momento, ela percebe que algo havia mudado. E então, decide soltar Abbey que, sem dizer nada, pega o barco e vai embora. Ellie fica sentada, numa parte rasa da água, ao lado do seu barco, estancando o sangue de dois dedos que foram "perdidos", numa cena de uma fotografia impecável, mostrando que havia algo a mais sobre a vingança dela. Ela estava sozinha, fora e dentro de si mesma. Tudo fica escuro.


Ellie volta à fazenda e descobre que Dina foi embora. Levou tudo, menos o violão, que Ellie ganhou de Joel no começo do jogo, e alguns discos. Ela senta na cadeira e tenta tocar, mas desafina, porque estão faltando dois dedos. Aí vem o último flashback do game e, de coração, o mais emocionante.


Joel está tocando violão na varanda de sua casa. Ellie aparece, meio sem jeito (aliás, isso acontece em várias cenas de flashback durante o jogo: essa relação desconfortável entre os dois, meio que "sem explicação") e eles começam a conversar. Ela diz a ele que nunca vai perdoá-lo por ele tê-la salvado do hospital, no primeiro jogo. Segundo ela, ele tirou o seu sentido de vida. Joel, por sua vez diz: “Se Deus me permitisse, eu faria tudo de novo”. Ali, sem dizer nada além, fica claro que ele a amava como uma filha e faria tudo para protegê-la, porque não aguentaria perder mais uma “filha”. Então, ela finaliza: “Mas eu posso tentar” (perdoá-lo). Ele acena com a cabeça, com os olhos lacrimejando, olhando para o horizonte, e Ellie vai embora. Ali, como fã, foi de partir o coração, porque era a última cena dos dois juntos. Tudo fica escuro.


A cena final mostra, em uma fotografia impecável, o violão que Joel deu à Ellie sendo enquadrada aos poucos e, quando a câmera está mais próxima da janela, mostra ao fundo, em segundo plano, Ellie indo embora. Ela tinha resolvido seu remorso. Ela estava, finalmente, seguindo sua vida. FIM.

Eu vivi, por meio da experiência do game, todas as histórias. É impossível não se colocar no lugar de todos os personagens, muito bem construídos.


Para finalizar, somente quem jogar vai conseguir sentir o que senti. Infelizmente, muitas pessoas se sentiram desconfortáveis em relação à homossexualidade da Ellie, com a menção à condição trans de Lev e com o fascismo que havia como pano de fundo. Muitos diziam que havia uma mensagem política ali. De verdade, isso não me incomodou nenhum pouco. Eu gostei da ousadia que a Naughty Dog trouxe para esse game que, com certeza, marcou e ainda vai marcar a vida de muitas pessoas, assim como marcou a minha.


The Last of Us - Parte II é um jogo violento, sim (+18), que retrata o ódio e a vingança de forma muito verdadeira, mas, acima de tudo, é um jogo de empatia que você faz você refletir sobre o que você faria na situação dos personagens, vivendo em um mundo devastado por um vírus, onde sobreviver é regra básica.


Agora só nos resta aguardar pela Parte III, daqui a alguns anos, e, em breve, a série do game, que será exibida pela HBO, na direção do episódio piloto do mesmo diretor da excelente minissérie Chernobyl.


PS. Não entrei tanto em detalhes sobre os inimigos (os infectados e humanos) porque quis focar na experiência que o jogo teve para mim. E eles já estavam, de certa forma, no outro game (um pouco mais simples e em menor quantidade). Aqui, trouxe o que realmente foi novo.


Se você quer conhecer um pouco do jogo, mas não tem videogame (ou não joga), veja o comercial oficial abaixo.



ASSISTA TAMBÉM, no canal do Ansiedade Criativa:




2 comentários

2 Comments


Unknown member
Jul 05, 2020

Adorei o que você escreveu. Muito obrigado por ter compartilhado um pouco da sua experiência. Um grande abraço 😊

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ra_lazarini
Jul 05, 2020

Eu também achei esse jogo incrível. Gostei muito da forma que mostraram a dualidade da vingança. Não só construíram muito bem a história da Abby fazendo-nos entender seu lado, como mostraram que procurando vingança elas apenas perderam mais. A Abby perdeu todos que amava, e a Ellie também, no final quando abandona Dina pra procurar vingança como forma de encerramento, ela retorna com menos do que tinha, sem a família e sem os dedos rs. Não tinha reparado no que escreveu dos barcos no final, da Abby virado pro mar e da Ellie pra praia, simbolismo genial! Acompanhando a Abby acho que os sonhos mostram de forma sutil a superação dela. No começo, via o pai morto sempre que abr…

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